Feb
14
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Miguel Cardoso
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar |
O quê e para quê
Miguel Cardoso, poeta
A rua, propriamente dita
RUA. Subst. Fem.
- É lá fora. Na minha não acontece nada. Diz-se às vezes que é nossa. Às vezes fecha-se, e é do Belmiro. Benjamin disse que era “a morada do colectivo”, o que vem a propósito. Tem gente. Acontece ter gente. Nunca se sabe bem quem por lá anda e isso a alguns faz um bocadinho de medo, e comichões. Tem gente, gente que não se percebe se é gira ou é esquisita. Chove às vezes e caem caganitas de pássaro. Os surrealistas diziam: é descer à rua e disparar à toa na multidão. O Ministério da Adminstração interna, tal como os tempos que correm, é metade surrealista metade realista, pelo que faz preparativos para disparar à toa na multidão só ao fim de quinze minutos de tácticas policiais das mais avançadas. Quando há pequenos tremores de terra, apertam-se à pressa os roupões e é a ela que se vêm comparar sustos. Há quem diga que a democracia é um surto de susto.
- Não confundir com a Terra, onde se pode ter os pés bem assentes
- É lá fora. Na minha não acontece nada. Diz-se às vezes que é nossa. Às vezes fecha-se, e é do Belmiro. Benjamin disse que era “a morada do colectivo”, o que vem a propósito. Tem gente. Acontece ter gente. Nunca se sabe bem quem por lá anda e isso a alguns faz um bocadinho de medo, e comichões. Tem gente, gente que não se percebe se é gira ou é esquisita. Chove às vezes e caem caganitas de pássaro. Os surrealistas diziam: é descer à rua e disparar à toa na multidão. O Ministério da Adminstração interna, tal como os tempos que correm, é metade surrealista metade realista, pelo que faz preparativos para disparar à toa na multidão só ao fim de quinze minutos de tácticas policiais das mais avançadas. Quando há pequenos tremores de terra, apertam-se à pressa os roupões e é a ela que se vêm comparar sustos. Há quem diga que a democracia é um surto de susto.
- Não confundir com a Terra, onde se pode ter os pés bem assentes
- Se há um tremer de terra a sério, um tremor de rua, um descer de gente de repente a ela, não haverá depois elevadores para subir na vida, nem lofts para lançar os olhos sobre o campo de batalha. Começa tudo por baixo, rente ao chão. Com muita gente rente.
- Uma coisa é uma rua, ou as ruas. A rua, propriamente dita, isto é, propriamente andada e ocupada e vivida e espalhada, é outra coisa. É que ruas há muitas, mas “a rua” é no geral. A rua é, aliás, o sítio do geral. É onde se encontram, se desencontram e se perdem coisas e pessoas. É onde agora se vai dar umas passas, por onde andam os passantes e vagueiam os passados, onde páram os passadores. Passam aviões por cima, e fios, e uns tubos por baixo. A rua, e não uma rua. Uma rua varre-se e aperalta-se e fotografa-se para fazer postais bonitinhos. A rua não posa para fotografias, nem de férias nem para bilhetes de identidade. Fica sempre tudo desfocado. O geral tem destas singularidades. Há não muito tempo, e um pouco por todo o lado, uma parte pequena do colectivo resolveu instalar-se nas praças, que são um subconjunto de rua, mas que dá para rodear com cordões policiais. As ruas também se fecham, uma a uma, mas a rua, a rua propriamente dita, em toda a sua ruidosa ruidade, rueza e ruição, é mais esquiva.
- Vai-se a ela e vai-se para ela. Ir à rua é preciso, quando por exemplo se acabam os cigarros. Vai-se para a rua quando se percebe que não há maneira deo acabar do futuro. Alguns dizem que é preciso arranjar maneiras de mandar muita gente, a tal gente, os inúteis, para ela. Sem grandes chatices, que as chatices chateiam. Diz que haver muita gente por lá é bom para a competitividade. Mas depois é preciso é ver se eles ficam sossegadinhos. A rua é um estado de sítio incerto. As pessoas na rua fazem muito barulho e cospem e cruzam-se e correm e levantam poeiras e trocam ideias fora do estado e fora do sítio e fora do certo. E uma pessoa perde-os de vista e sabe-se lá o que andam a fazer. É preciso andar de olho. Por isso se compram binóculos, se instalam câmaras de vigilância. Por isso é que se fala de emergência social.
- Não é a melhor forma de ir de A a B: para isso há a Estrada que, apesar dos buracos, geralmente é mais limpa, mais a direito e tem menos pobres (ou eles desviam-se). Mas é um bom sítio para o chamado “contacto directo” com a População – ou com o Povo, embora, ao que nos dizem, o Povo (que não é tão ‘em geral’ como a população) pára mais nas feiras ou noutros locais de ambiência pitoresca de preferência a cantar ou a comer chouriços regionais que são um mimo. A População, isto é, a gente, é emE isso se calhar é bom mas se calhar isso é mau.
- De rua há o teatro e animação, os animais, as conversas, o futebol e as crianças, os mercados (o comércio) e as acções e os anúncios e os repórteres e as manifestações. Apesar de ser um sítio mal sinalizado, e que não se sabe bem onde vai dar, tem aparentemente algum charme. Há pelo menos muitos que querem passar por lá. Não são só os sindicatos que ameaçam voltar à rua: a igreja quer ‘vir para a rua’, diz-se que a filosofia devia descer à rua. Uma gerente de uma surcursal do Investors Savings Bank dizia há uns tempos a um jornal que os seus colaboradores iam distribuir bens por várias instituições e que isso era uma “boa forma de descer à rua para conhecer a nossa comunidade”. O importante, dizia ela, são as pessoas. Um de cada vez, em fila para o balcão.
- Como se vê, à rua sai-se, mas sobretudo desce-se.: como aos pormenores, à raiz dos problemas, e aos infernos. Levam-se lá os cães e soltam-se lá os doidos. Uma pessoa vai pela, anda pela, deambula pela. Uma pessoa porta-se mal e é posto no meio do olho da. Pára-se na. Pede-se na. Vive-se na. Valsa-se até nu na. É um ver se te avias na. De vez em quando vê-se passar uma freira, devagarinho. Ah. O senhor polícia diz que é para seguir: amigo, não há nada para ver. O senhor político diz para não fazer muito barulho que incomoda a austeridade.
- O Álvaro de Campos, por exemplo, que snifava perfumes de óleos, ia por aí fora pela com engrenagens rangentes de espasmos. E não por acaso, como o seu irmão Walt, que também amava tudo, falava de fraternidade. A fraternidade, como a rua, é uma coisa muito roçada, tanto em rasgões de repente como nas prolongadas e pequeninas erosões do hábito. Pois a rua não é afinal tão triunfal assim. Seguramente não tão triunfal assim. A rua tem engrenagens obscuras e motores subtis. As suas cadeias de transmissão são por vezes inúteis. Mas nunca sem saída. Há sempre mais rua. E talvez a inutilidade seja ela própria uma saída. Antes ser inútil que ser útil para isto.
- Atravessam-se de dia e varrem-se à noite. Os varredores são por isso “de ruas” e para os lados do Intendente há mulheres que são também dela. Passa por lá muita gente a caminho do trabalho e quando o Benfica ganha o campeonato. Um pouco como a Realidade, segundo Woody Allen, é um sítio simpático mas as pessoas não querem lá viver. Parece, aliás, que a Rua está mais próxima da Realidade do que, por exemplo, os call centers. Diz-se ainda que os intelectuais têm pouco jeito para a rua. Os intelectuais são sempre os outros. Topam-se pela sola pouco gasta. Há quem duvide até que eles tenham pés: não dá para ver na televisão nem na foto do jornal nem atrás da secretária. À rua pertence um tipo específico de esperteza. Não confundir com esperteza saloia: isso é mais nas tascas e nos cafés. O poder foge dela quando pode, mas de vez em quando volta – geralmente para fazer visita de cortesia e lembrar às gentes que subiu na vida.
- As vanguardas sempre tiverem um fraquinho por ela. Era preciso arejar. Em casa, como nos museus, mal se respirava. As casas eram jaulas forradas a papel de parede com florizinhas, atafulhadas com estojos forrados a veludo, berliques e berloques, cortinados, rendas e quinquilharia pirosa. Coisas que se rasgavam e partiam e estragavam. E mulheres. Eles gostavam de coisas viris, coisas a vapor que depois se transformaram em coisas com não sei quantas velocidades. De esplanadas. E de outras mulheres. Em casa há muita coisa que se parte. E mulheres. Olha, vamos brincar para rua. E diziam também, umas horas mais tarde: Hi honey, I'm home!
- Nelas se inventou o esteticismo porque só havia candeeiros a gás e o seu bruxulear, com muitas zonas de intermédia escuridade. Atget fotografou-as vazias, sem “atmosfera” - essa coisa que têm os planetas e os bares da moda. E o Benjamin (lá vem ele outra vez) disse que eram como casas evacuadas à espera de um novo inquilino. Depois o Cesariny escreveu Há uma hora, há uma hora certa/ que um milhão de pessoas está a sair para a rua. É a mesma coisa. Wordsworth deixou-se de pastorais e roçou-se com gente nela. A rua é uma casa vaga com gente vaga com propósitos vagos e com cotovelos concretos.
- É um “teatro”, diz-se. Fréderic, o protagonista de A Educação Sentimental, dizia (isto em 1848) que parecia assistir a um espectáculo enquanto o pessoal andava à trolha na calçada. Brecht mandou os actores irem lá ver como é que se fazia. Baudelaire viu uma moça com a rua em torno a urrar. Ficou de beicinho. O Benjamin ficou de beicinho pelo Baudelaire e escreveu muito sobre o flâneur, que passeava na rua em fim de século. A moça sumiu-se. No Proust é também mais ou menos isto, mas ela ia a dar ao pedal. Parece que é o melhor sítio para ver meninos e meninas a passar. Nela correm rumores e explodem apitos. Joyce descreveu-a assim: “Hooray! Ay! Whrrwhee!”. Uma das suas personagens compara a sua despenteada flora sonora à “voz de Deus”. Rouca, esfarripada e desconforme.
- No princípio de O Homem sem Qualidades, um tipo é atropelado por um camião e as pessoas dizem: Es ist passiert. Pois. Alguns futuristas passaram assim: ZAUM! A revolução também passa e alguns fazem as malas. Os poetas sem qualidades (ou, vá lá, poucochinhas) também gostam muito, e levam-na a beber um copo ao balcão. Entretanto, passam os existencialistas, de óculos escuros, a caminho do café para um shotezinho de náusea. Andam por lá mortos, lembra o T. S. Eliot, mas é mais nas pontes. Diz o Beckett: vamos antes ali para um quartinho, algo mais recolhido, onde podemos espreitar por janelas que dão para nada e falar do fim do mundo e mastigar coisas velhas e rir alarvemente disto. Sem candelabros ou chazinho das cinco.
- Nos filmes, nem se fala. Ou fala-se só um bocadinho: ah, a Ana Magnani a estatelar-se lentamento no meio da. E assim: New York Herald Tribune! Só isto já dá para encher um bom bocado de juventude. E depois larga-se, para não romantizar.
- Apesar de toda esta fanfarra, a rua é humilde. Para voltar a Cesariny, homem de muita rua: “Ama como a estrada começa”. O que, para além de ser ligeiramente piroso (o que é pouco habitual nele), não se aplica à rua. A rua não começa, continua. A rua é prosaica, a estrada lírica. A estrada é onde se arranca, é o que nos leva para fora da mixórdia morna da rua. Já disse: uma pessoa vai à rua, desce à rua, cai na rua. Mas lança-se e faz-se à estrada. O Kerouac, precisamente, queria mas era zarpar lá da rua dele. Talvez Bloom se faça à rua. Ou a rua faz-se a ele. A Mrs. Dalloway mergulhava nela porque tinha que ir comprar flores, sim, mas também gostava mais de pessoas que couves-flores. Um avião escrevia letras no céu. Com que então, diz Septimus, sentado no seu banquinho do parque, está tudo vivo e estão a comunicar comigo. A questão é, para muitos: como não enlouquecer na rua e na guerra ?
- Há outras distinções importantes: Voltemos para isso ao Álvaro, o da fase de muitos e muito democráticos Ós, Eias, Olás e Hup-lás: Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-la-hó la foule! A rua, está visto, é onomatopaica. Há quem diga que nas praças é que é. E é. Mas há mais gente na rua e é preciso ver bem isso. E depois há a política. Já lá vamos. Primeiro é preciso descer à rua. E ficar por lá.
- Varrem-se, como casas, e atravessam-se, como paisagens. Arranjam-se, para turista ver, e cortam-se, empilhando sacos e restos de veículos. Têm montras, e é nelas por isso que elas se partem. É palco de protestos em massa e corredor do consumo privado. Acolhe a marcha dos muitos, e os indivíduos que saiem de um bar em dança de cai-não-cai. Talvez haja um ponto, um momento, em que o colectivo e o disperso, o comum e o privado, bem como o passo propositado e o vaguear a despropósito, se toquem, façam curto circuito. E depois todos os momentos seguintes. E depois todas as palavras seguintes. E não haverá rua, propriamente dita. Não haverá estas palavras, propriamente ditas. Ainda não temos dicionários para o tempo depois do tempo de descer à rua.




