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Feb
14

Indignação - Hélia Correia

Author // AdministratorPosted in // 15O / Depoimentos

Publicado no “Local”, do Público, dia 21 de Janeiro , data da “Marcha de Indignação” que, respondendo ao apelo da Plataforma 15O, marcou o início dos protestos cívicos de 2012.

Hélia Correia

Indignação
 

O horror calou tudo, declararam.
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?
Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz? 

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Feb
14

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - José Mário Branco

Author // AdministratorPosted in // 15O / Depoimentos

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar |
O quê e para quê

José Mário Branco, músico e poeta

Tenho acompanhado com interesse, evidentemente, todas as tentativas e experiências que têm vindo a ser feitas por todo o mundo na sequência da "primavera" do Cairo. Mas na minha experiência há um sarro do passado.

Meti-me na política aos 17 anos, estive preso pela PIDE, fugi para França em 1963 e voltei em 1974. Desde 64-65 e até há poucos anos, estive sempre ligado à extrema-esquerda de inspiração maoista. Como não sou realmente um político, mas sim músico, letrista e cantor, nessas pertenças e fidelidades fui sempre guiado por duas coisas:

- os grandes valores que, num artista, naturalmente convocam um lastro de radicalidade e, por outro lado,

- a fidelidade a homens políticos cujos escritos e posições públicas me foram parecendo melhor exprimir politicamente essa radicalidade.

O que me levou a ir entrando e saindo de colectivos onde me sentia em casa. Mas como afirmei pouco antes de deixar o último, que ajudei a fundar: "eu nunca saí de partido nenhum, os partidos é que foram saindo de mim".

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Feb
14

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Luís Henriques

Author // AdministratorPosted in // 15O / Depoimentos

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | 
O quê e para quê

Luís Henriques, ilustrador

«Há que resgatar «a rua» ao discurso depreciativo da tecnocracia e inverter os argumentos "não vale a pena", ou "é pior".
A rua não é dos ignorantes e dos violentos. Na rua, uma multidão apartidária e pacifica, pela democracia, contrabalança o gesto demasiadas vezes resignado do cliente/votante do regime rotativista governamental.
É preciso alterar o padrão do consumo e desperdício dos países mais industrializados porque a escalada produtivista, a escalada especulativa e a escalada populacional vão gerar furacões naturais e políticos cada vez maiores. 
É preciso mudar a ideia feita do estado de emergência necessário, que confisca direitos e desculpa violências cada vez mais graves.

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Feb
14

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Margarida Vale de Gato

Author // AdministratorPosted in // 15O / Depoimentos

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | 
O quê e para quê

Margarida Vale de Gato, tradutora e poeta

 

Democrítica    (diálogo com José Mário Branco)


Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
que a exercer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,

herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,

e deixa que o isente a lucidez
da rota rigorosa da unidade
além da sua esfera. Mais consola

levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.

Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.


Agora, se descerem os médios
à rua e os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência e translação,
a derrubar ditas classes consumo e capital,
o cómodo sem afecto, a sôfrega avidez pateta,
e o que a todos sobre os ombros nos carrega,
aí então. além de sublime e ser poeta,
talvez mais do que busque eu dê entrega.

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Feb
14

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Miguel Cardoso

Author // AdministratorPosted in // 15O / Depoimentos

Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | 
O quê e para quê

Miguel Cardoso, poeta

 

A rua, propriamente dita 

RUA. Subst. Fem.

  1. É lá fora. Na minha não acontece nada. Diz-se às vezes que é nossa. Às vezes fecha-se, e é do Belmiro. Benjamin disse que era “a morada do colectivo”, o que vem a propósito. Tem gente. Acontece ter gente. Nunca se sabe bem quem por lá anda e isso a alguns faz um bocadinho de medo, e comichões. Tem gente, gente que não se percebe se é gira ou é esquisita. Chove às vezes e caem caganitas de pássaro. Os surrealistas diziam: é descer à rua e disparar à toa na multidão. O Ministério da Adminstração interna, tal como os tempos que correm, é metade surrealista metade realista, pelo que faz preparativos para disparar à toa na multidão só ao fim de quinze minutos de tácticas policiais das mais avançadas. Quando há pequenos tremores de terra, apertam-se à pressa os roupões e é a ela que se vêm comparar sustos. Há quem diga que a democracia é um surto de susto.
     
  2. Não confundir com a Terra, onde se pode ter os pés bem assentes