24.º Comunicado de Imprensa - 22 de Fevereiro - Plataforma 15 de Outubro convoca Manifestação para o dia de Greve Geral
No dia 22 de Março, dia de greve geral, a Plataforma 15 de Outubro entende ser imperativo sair à rua para uma manifestação em defesa de todos/as os trabalhadores/as: desempregados/as, precários/as, pensionistas, estudantes e os activos/as que vêm com o novo pacote laboral os seus direitos duramente conquistados serem roubados por um governo tirano no seu desrespeito pelos contratos sociais e pela própria constituição!
O desemprego atinge níveis nunca vistos na história recente de Portugal, 35% dos jovens até aos 25 anos estão desempregados, todos os dias milhares de trabalhadores/as são abjectamente explorados/as através de contratos de trabalho abusivos e recibos verdes, e à geração mais escolarizada da história deste país, aquela em que mais se investiu, é lhe mandada emigrar. A plataforma considera assim essencial ir para a Rua em dia de greve geral exigir o fim imediato de políticas de austeridade, impostas pelo governo e pela Troika que destroem as conquistas de Abril e lançam todos os dias os trabalhadores/as para uma situação de pobreza que o próprio Passos Coelho admitiu fazer parte da sua estratégia política.
No dia 22 de Março, a plataforma 15 de Outubro sai à rua numa manifestação porque não queremos sofrer o mesmo destino trágico do povo grego!
23.º Comunicado de Imprensa - 16 de Fevereiro - Plataforma 15 de Outubro solidária com as famílias do Pinheirinho
Hoje, 16 de Fevereiro, a Plataforma 15 de Outubro, em solidariedade com as famílias do Pinheirinho, vai entregar uma carta à embaixada do Brasil em Lisboa em que apela ao Governo Federal, em particular à Presidente Dilma Roussef, a devolução dos terrenos ou a atribuição de habitações condignas aos seus habitantes. No violento despejo ocorrido estão em causa violações dos direitos humanos, em pessoas nas suas próprias casas, com actos de violência sobre homens, mulheres e crianças. Esta acção por parte do Estado brasileiro teve como alvo a população pobre e negra, situação irónica e contraditória nas vésperas de um evento desportivo (os Jogos Olímpicos) que pretende promover a paz entre os Homens.
Abaixo, a transcrição da carta entregue à Embaixada do Brasil:
“A Plataforma 15 de Outubro (P15O), constituída por dezenas de movimentos sociais de Portugal, vem manifestar o seu total repúdio pelo massacre levado a cabo pelo Governador de S.Paulo, Sr Geraldo Alckmin, e pelo Perfeito de S.José dos Campos, Eduardo Cury contra os moradores do bairro conhecido como "Pinheirinho", em São José dos Campos.
A P15O partilha de todas as manifestações que, pelo mundo inteiro, se solidarizaram com os moradores do "Pinheirinho" e denunciaram o atroz e covarde desalojamento, à revelia da justiça, de um bairro de trabalhadores que aí construíram, com o seu esforço, um lugar para as suas famílias viverem quando esse deveria ser um direito garantido pelo Estado. Sabemos, pelo ocorrido em outros países que organizaram grandes eventos desportivos, tal como acontece agora no Brasil, que a pressão especulativa para "higienizar" as cidades de pobres é muito poderosa. Assim, parece-nos que a repressão e perseguição aos movimentos sem tecto é uma contradição num país que se dispõe a acolher o espírito das olimpíadas.
Pedimos ao Governo Federal, em particular à Presidente Dilma Roussef, que devolva o terreno a estas famílias ou que trate de lhes encontrar uma alternativa de habitação digna.”
Indignação - Hélia Correia
Publicado no “Local”, do Público, dia 21 de Janeiro , data da “Marcha de Indignação” que, respondendo ao apelo da Plataforma 15O, marcou o início dos protestos cívicos de 2012.
Hélia Correia
Indignação
Depois de Auschwitz
Continuámos a falar, porém – sem ambição.
Reconhecendo o inalcançável,
Baixando o olhar.
Pois o que pode a fala? Por que dizem
Que, cantada, faz de arma?
Se com ela não nos municiamos.
Se, com a morte de uma Grécia antiga,
Perdemos o condão de nomear
Deuses e sentimentos e até
As pequenas moléculas, enfim, nomear o real
Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?
Esses, os que levavam para a praça
Quezílias, sim, projectos e também,
E, sobretudo, uma noção de polis
E de uma paridade vigiada,
Severamente vigiada.
Os Gregos, esses
Que narravam o medo para que o medo
Se tornasse visível, prisioneiro
Na teia do poema,
Se não compreensível, pelo menos
Transformado em espectáculo – essa Grécia,
Essa Atenas perfeita, mais perfeita
Que qualquer utopia, a rapariga
Inesperadamente transformada
Numa ruína,
Esses – que não existem
E nos deixaram assustados, sós,
Sob o sem-rosto, sós,
Sem as ferramentas adequadas,
Sem pensamento,
Sem esses deuses temperamentais
Que tomavam partido nos combates,
Nós, os abandonados, os que não
Sabem sequer como aplacar
E a quem,
Nós, os emudecidos,
Irmanados com os sem-terra, nós,
Os futuramente esfomeados,
Bárbaros com os pés no alcatrão,
Bebedores de petróleo, como pode
De novo a praça,
A Ágora, juntar-nos?
Transformados em porcos, por feitiço,
Pela malevolência,
Exactamente
Como na Odisseia,
Não sabemos
- e os Gregos esqueceram –
Como é que tal feitiço
Se desfaz?
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - José Mário Branco
O quê e para quê
José Mário Branco, músico e poeta
Tenho acompanhado com interesse, evidentemente, todas as tentativas e experiências que têm vindo a ser feitas por todo o mundo na sequência da "primavera" do Cairo. Mas na minha experiência há um sarro do passado.
Meti-me na política aos 17 anos, estive preso pela PIDE, fugi para França em 1963 e voltei em 1974. Desde 64-65 e até há poucos anos, estive sempre ligado à extrema-esquerda de inspiração maoista. Como não sou realmente um político, mas sim músico, letrista e cantor, nessas pertenças e fidelidades fui sempre guiado por duas coisas:
- os grandes valores que, num artista, naturalmente convocam um lastro de radicalidade e, por outro lado,
- a fidelidade a homens políticos cujos escritos e posições públicas me foram parecendo melhor exprimir politicamente essa radicalidade.
O que me levou a ir entrando e saindo de colectivos onde me sentia em casa. Mas como afirmei pouco antes de deixar o último, que ajudei a fundar: "eu nunca saí de partido nenhum, os partidos é que foram saindo de mim".
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Luís Henriques
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar |
O quê e para quê
Luís Henriques, ilustrador
«Há que resgatar «a rua» ao discurso depreciativo da tecnocracia e inverter os argumentos "não vale a pena", ou "é pior".
A rua não é dos ignorantes e dos violentos. Na rua, uma multidão apartidária e pacifica, pela democracia, contrabalança o gesto demasiadas vezes resignado do cliente/votante do regime rotativista governamental.
É preciso alterar o padrão do consumo e desperdício dos países mais industrializados porque a escalada produtivista, a escalada especulativa e a escalada populacional vão gerar furacões naturais e políticos cada vez maiores.
É preciso mudar a ideia feita do estado de emergência necessário, que confisca direitos e desculpa violências cada vez mais graves.
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Margarida Vale de Gato
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar |
O quê e para quê
Margarida Vale de Gato, tradutora e poeta
Democrítica (diálogo com José Mário Branco)
Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
que a exercer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,
herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,
e deixa que o isente a lucidez
da rota rigorosa da unidade
além da sua esfera. Mais consola
levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.
Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.
Agora, se descerem os médios
à rua e os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência e translação,
a derrubar ditas classes consumo e capital,
o cómodo sem afecto, a sôfrega avidez pateta,
e o que a todos sobre os ombros nos carrega,
aí então. além de sublime e ser poeta,
talvez mais do que busque eu dê entrega.
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar | O quê e para quê - Miguel Cardoso
Porque vale a pena sair à rua | Porque é preciso mudar |
O quê e para quê
Miguel Cardoso, poeta
A rua, propriamente dita
RUA. Subst. Fem.
- É lá fora. Na minha não acontece nada. Diz-se às vezes que é nossa. Às vezes fecha-se, e é do Belmiro. Benjamin disse que era “a morada do colectivo”, o que vem a propósito. Tem gente. Acontece ter gente. Nunca se sabe bem quem por lá anda e isso a alguns faz um bocadinho de medo, e comichões. Tem gente, gente que não se percebe se é gira ou é esquisita. Chove às vezes e caem caganitas de pássaro. Os surrealistas diziam: é descer à rua e disparar à toa na multidão. O Ministério da Adminstração interna, tal como os tempos que correm, é metade surrealista metade realista, pelo que faz preparativos para disparar à toa na multidão só ao fim de quinze minutos de tácticas policiais das mais avançadas. Quando há pequenos tremores de terra, apertam-se à pressa os roupões e é a ela que se vêm comparar sustos. Há quem diga que a democracia é um surto de susto.
- Não confundir com a Terra, onde se pode ter os pés bem assentes
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